David de Medeiros Leite: Um Lorde em busca da imortalidade

David de Medeiros Leite: Um Lorde em busca da imortalidade

A Prosa de Artista conversa essa semana com uma unanimidade. Como bem descreve o jornalista José de Paiva Reouças, David de Medeiros Leite é um verdadeiro lord. Mas isso é pouco diante de sua longa trajetória do professor, escritor, poeta, produtor, em fim uma ser iluminado por natureza.

O mossoroense conquistou com sua capacidade intelectual, não apenas o público mossoroense e potiguar, mas também foi além-mar e conquistou a Espanha.
A ida ao país estrangeiro em 2006 para estudar, marcou profundamente a sua vida acadêmica e literária. Lá, fez contatos importantes, conheceu a literatura espanhola e se engajou em movimentos que lhe renderam a participação em várias antologias. A comparação entre a terra medieval de Salamanca, cuja universidade fundada em 1218 é a mais antiga daquele país e a oitava do mundo, seria impossível se não fosse a sensibilidade poética e a percepção de quem ama em demasia a sua terra.

Vamos ter uma prosa distinta com esse lord, que não perde suas origens e sua capacidade de transcrever sua compreensão de mundo através dos seus escritos. Um lorde em busca da imortalidade.

Prosa de Artista– David Leite, fale-nos um pouco sobre suas origens. Fale sobre seu nascimento, seus pais, infância, início da vida escolar.

D.L.: Nasci em Mossoró-RN (1966). Sou o caçula de uma prole de 12 filhos. Meus pais: Aldemar Duarte Leite (falecido) e Hilda de Medeiros Leite, hoje vivendo seus 90 anos de idade com relativa saúde, graças a Deus. Infância vivida entre as brincadeiras na empoeirada Avenida Rio Branco e as férias escolares na zona rural do município, particularmente numa região denominada Carmo, onde, por sinal, em 1701, os frades carmelitas iniciaram a chamada catequização indígena em nossa região. Enfim, minha infância possui uma aura que me remete a uma feliz “nordestinidade”. O início de minha vida escolar, ou o curso primário, como era chamado, foi no Instituto Alvorada, que fica na mesma Avenida Rio Branco.

P.A– Como foi sua educação? Quando surgiu o interesse pela literatura?

D.L – Sempre ressalto que meu gosto pela literatura possui uma ligação muito estreita com o incentivo que me foi proporcionado lá no Instituto Alvorada, no ensino elementar, como também, nos colégios Eliseu Viana e Abel Coelho, onde tive bons professores. E, claro, as leituras foram as correspondentes de cada período, ou seja, no primeiro momento, Monteiro Lobato, depois Machado de Assis, José de Alencar, etc. Agora, no que diz respeito aos autores potiguares, vamos assim dizer, primeiro comecei acompanhando, com real interesse, a produção do jornalista mossoroense Dorian Jorge Freire, em páginas de jornais, pois, somente em 1991, Dorian teve o primeiro livro publicado, reunindo suas crônicas: Os dias de domingo. O estilo de Dorian me impressionou deveras. Em um segundo momento, por ter despertado interesse em história local, enveredei por Câmara Cascudo, Raimundo Nonato da Silva e outros tantos.

P.A– Fale sobre sua vida acadêmica e carreira de professor?

D.L – Fiz um primeiro curso de graduação em Administração, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Depois, já morando em Natal, fiz outra graduação, em Direito, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Do ponto de vista profissional, além de atuar na área de gestão pública, exerci a advocacia por certo período, porém enveredei pela docência, buscando assim, cursar mestrado e doutorado na área especifica de direito administrativo. Atualmente sou professor do Curso de Direito – no Campus da UERN –, em Natal-RN. E, para minha honra, sou vice-diretor do referido Campus.

P.A– Quando você se deu conta de que era um escritor, e começou a publicar suas obras?

D.L- De leitor interessado aos primeiros passos no caminho da escrita, foi um percurso praticamente natural. Do “alto” dos “meus vinte e poucos anos”, início ou meados da década de noventa, comecei a publicar textos nos jornais mossoroenses. Nem sei se poderia classificá-los como crônicas… Seriam mesmo descomprometidos escritos de um iniciante rabiscador de província. Quanto aos livros, nossa primeira publicação foi Companheiro Góis, 10 anos de Saudades(Ed. Coleção Mossoroense, 2001). Trata-se de uma homenagem a um velho comunista, nascido em Caraúbas, mas que teve intensa militância em Mossoró. Góis era autoditada e possuía considerável cabedal de leitura; conhecia marxismo como gente grande. E, por isso, seu poder argumentativo, em calorosos debates, impressionava sobremaneira. Em suma, o livro reúne diversos depoimentos de intelectuais e personalidades engajadas em movimentos esquerdistas.

P.A– Fale-nos de sua carreira literária?

D.L- Após o Companheiro Góis – 10 anos de Saudades, publicamos, em parceria com os historiadores Gildson Souza e Lima Júnior, Os carmelitas em Mossoró(Ed. Coleção Mossoroense, 2002). Em 2003, Ombudsman Mossoroense (Ed. Sebo Vermelho). À guisa de contextualização, no começo dos anos 1980, estavam em voga discussões acerca da figura do “ombudsman”, tanto em jornais como em instituições públicas e privadas. De forma, digamos, irônica, escrevi uma crônica em que trouxe essa discussão para a realidade mossoroense, conjecturando justamente como seria esse ombudsman na Terra de Santa Luzia. Penso que agradou ao público. Enfim, o livro consiste de crônicas sobre fatos e personagens de Mossoró, sendo “Ombudsman mossoroense”, a crônica-título. Gostaria de ressaltar: Dorian Jorge Freire escreveu o texto da orelha do Ombudsman e o poeta Paulo de Tarso Correia de Melo fez o prefácio.

P.A– Como foi a experiência de estudar na Espanha e estreitar laços com grandes nomes da literatura de Salamanca?

D.L – Como sói ocorrer na formação acadêmica, seguimos rumo à pós-graduação stricto sensu e isso nos levou a viver quatro anos na cidade de Salamanca, na Espanha (2006 – 2010). E, quando posso, volto a Salamanca com prazer e afinco. Pois, em paralelo ao ritmo de estudo, a busca e o envolvimento com o mundo literário de lá, me foi inevitável. Mas que isso: liguei-me à douta e culta cidade de forma mais entranhável. Por vezes, meus conterrâneos mossoroenses chegam a duvidar se hoje sou mais ligado a Salamanca do que a Mossoró. Outro dia, um amigo, em tom de blague, me enviou um comentário do escritor José Carlos Vasconcelos, feito por Ignácio de Loyola Brandão, dizendo do dilema do escritor português que, nascido na cidade de Freamunde, teria afirmado: “aquela é a minha terra, onde nasci, e Póvoa de Varzim é a minha terra, onde não nasci”. Porém, respondi dizendo que não caberia emulação entre o dilema do notável poeta português, com o nosso entre Mossoró e Salamanca. Para melhor situar nosso sentimento, prefiro me valer de François Silvestre que em comentário para “orelhas” do livro Cartas de Salamanca (Ed. Sarau das Letras, 2011), diz: “O escritor e intelectual David de Medeiros Leite retirou de Mossoró para Salamanca. Não foi um retirante da seca, das nossas migrações internas. Foi uma viagem de aprimoramento catedrático. E David carrega uma característica rara que é não se envergonhar de sua origem matuta. Ele leva o sertão nordestino para onde vai”.

P.A– Fale-nos dos seus trabalhos mais recentes e suas perspectivas de projetos?

D.L – Em verdade, nosso livro mais recente é um romance. Sempre escrevi crônica e poesia (desde de 2001 que publico em ambos os gêneros). Em 2020, com o 2020 (Ed. Sarau das Letras, 2020) estreei na ficção (o trocadilho entre o ano e o título do livro foi inevitável…). Existe, sim, diferenças entre escrever em um gênero literário e outro. Alguém disse que “escrever crônica é como nadar em uma piscina, pois se enxerga a outra borda; porém, escrever um romance é como se a natação ocorresse em uma enseada ou mesmo um oceano…”. Exageros à parte, sentir nessa metáfora algo de real quando comecei a escrever o 2020 tinha uma ideia e, ao longo da escrita, as braçadas mudaram o rumo da prosa. Enfim, posso resumir dizendo: trata-se de novas experiências e, do ponto de vista literário, devemos sempre experimentar o novo. Em tempo: como colaborador da revista virtual “Papangu na Rede”, estou escrevendo contos.

P.A– Qual escritor, do passado ou do presente, você gostaria de convidar para um café?

D.L- Alberto Bresciani.

P.A– Você também é editor (Sarau das Letras). Como observa o atual movimento literário no RN?

D.L – A Sarau das Letras é uma editora potiguar independente, iniciativa nossa (escritores Clauder Arcanjo e David Leite), lá em 2005. Em dezembro de 2020, a Sarau das Letras alcançou a significativa marca de 300 (trezentos) livros publicados, em apenas 15 (quinze) anos de história. A seleção do que é publicado fica a cargo de um Conselho Editorial, constituído por sete intelectuais: Alfredo Pérez Alencart; Ângela Rodrigues Gurgel; David de Medeiros Leite; Kalliane Sibelli de Amorim Oliveira; Lilia Maria Machado Souza; Manoel Onofre Júnior e Raimundo Antonio de Souza Lopes. Tal Conselho lê e aprova as obras que passarão a fazer parte do catálogo da Sarau das Letras. O bibliófilo Clauder Arcanjo é nosso Editor-Executivo.

P.A– Em sua opinião, que tipo de Arte tem mais se destacado no Rio Grande do Norte na atualidade?

D.L – Seria imprudente de nossa parte fazer tal análise, pois temos melhor visão do chamado universo literário. Então, a resposta ficaria prejudicada.

P.A– Como se sente nesse momento disputando uma cadeira de imortal na ANLR?

D.L – Em verdade, não estou disputando. De quando em vez, alguns amigos, para minha honra pessoal, citam meu nome. Academias e confrarias literárias são necessárias. Faço parte de algumas instituições, posso citar, também a título de exemplos, da confraria literária Café & Poesia, Academia Mossoronese de letras (AMOL) e Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Mossoró (ACJUS). A Confraria Café & Poesia é totalmente informal, já nas Academias existe um ritual. Porém, o importante é que mulheres e homens se reúnem para debaterem literatura. Se existem pessoas que se encontram para discutir outros temas que lhes interessam, cabe a quem gosta das letras, convergirem num estuário comum. Quanto ao papel que essas instituições devem protagonizar nesse “novo normal”, teríamos que avaliar o propósito e funcionamento e forma muito particularizada para propormos algo. De uma forma bem geral, existe uma necessidade de reinventar-se diante de tantos desafios que a pauta do dia nos impõem.

P.A– Que mensagem você gostaria de deixar nesse momento?

D.L – Vivemos um momento delicadíssimo: vidas humanas ceifadas pela pandemia que, ainda, persiste e recrudesce. Nossa mensagem somente poderia ser de solidariedade aos familiares que perderam e perdem entes queridos todos os dias. Auguramos dias melhores. Nesse sentido, façamos o isolamento social e que a vacina chegue (urgentemente) para todos.

Um comentário em “David de Medeiros Leite: Um Lorde em busca da imortalidade

  1. David de Medeiros Leite é um grande intelectual do nosso tempo. Professor e escritor de escol, envereda por vários caminhos do conhecimento e escreve em vários gêneros literários. Falta-lhe, no entanto – em seu currículo -, o reconhecimento da Academia Norte Riograndense de Letras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *