Cid Augusto: O encontro do Jornalismo com a Literatura e o Direito

Cid Augusto: O encontro do Jornalismo com a Literatura e o Direito

A simplicidade da minha escrita é incompatível com a imortalidade”.

Graduado em direito e jornalismo, pós-graduado em direito e processo penal e em direito e processo do trabalho, mestre e doutor em estudos da linguagem, professor universitário. Isso só para citar alguns títulos defendidos pelo poeta, boêmio, amante das artes, Cid Augusto da Escóssia Rosado, ou simplesmente Cid Augusto. Mesmo pertencente a tradicionais famílias da política no Rio Grande do Norte, tendo como principal reduto a cidade de Mossoró, Cid Augusto sempre se manteve de forma discreta quando o assunto é politica partidária. Filho dos ex-deputados, Laíre e Sandra Rosado, e irmão dos ex-vereadores, Lahíre Neto, Vingt Neto, e da vereadora e ex-deputada Larissa Rosado, políticos com destaque no cenário estadual e regional, Cid é o único da família que não ingressou na vida pública.
Cid Augusto sempre teve suas atenções voltadas para o jornalismo, cultura e o Direito. Amante do soneto, gênero que vem sendo cada vez menos praticado no meio poético, ele é um dos poucos que ainda mantém vivo esse modelo em voga. Um traço peculiar que acompanha Cid Augusto ao longo dos anos é o uso de guardanapos de papel para escrever seus sonetos e versos.
A sobriedade, o carisma e a simplicidade sempre acompanham essa pessoa de hábitos simples e boa conversa, que sempre rompe a madrugada.
Ele é sócio-fundador da POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró, e também pertence à União Brasileira de Escritores, seção de Mossoró.

Por Fabiano Souza

Prosa de Artista: Nos conte um pouco sobre sua história de vida. Suas origens (pais, irmãos, infância, filhos). Quem é Cid Augusto?

Nasci em Mossoró-RN aos 16 de novembro de 1971, na Maternidade Almeida Castro, filho do médico Laíre Rosado Filho e da assistente social Sandra Maria da Escóssia Rosado. Sou o mais velho de quatro irmãos, seguido por Larissa, Vingt e Lahyre. Tenho três filhos, Sandra, Cid e Jerônimo, de 30, 23 e 13 anos, respectivamente. Clarisse Tavares é o nome da minha amada, proprietária e gestora. Tirando uma experiência de quase morte da qual sequer me lembro, tive uma infância tranquila, dividida em três espaços afetivos: a terra onde nasci, repleta de tradições e sem violência; a fazenda do meu avô materno, de secas e enchentes, do sertanejo forte, das pegas de boi, do leite quente no curral, dos banhos de barreiro; e Tibau, praia de águas mansas, de morros coloridos, dos pingas, das histórias de Ananias, dos mal-assombros de Tidó. Sobre quem sou, fico devendo. Tento descobrir isso há 50 anos, sem sucesso.

P.A.: Como foi sua educação formal, os primeiros anos de ensino e posteriormente a conclusão do ensino superior e pós-graduação?

Cid Augusto o acadêmico da UFRN

A pré-escola começou no Instituto Montessori, continuou no Colégio Dom Bosco e se concluiu no Colégio Diocesano Santa Luzia de Mossoró, onde também cursei o ensino fundamental. A primeira tentativa de fazer o ensino médio foi no Marista de Natal, mas acabei “convidado” a me retirar após a segunda reprovação seguida. No retorno à Capital do Oeste, vieram outras três reprovações e algumas desistências. Certo dia, minha mãe, que nunca desistiu do filho rebelde sem causa, convenceu-me a entrar no Centro de Estudos Supletivos Professor Alfredo Simonetti. No Supletivo, graças ao apoio da então diretora, professora Lourdes Firmino, criei gosto e nunca mais parei de estudar. De lá para cá, concluí jornalismo na UFRN, direito na UnP, especialização em direito e processo do trabalho na UnP, especialização em direito e processo penal na Faculdade Damásio de Jesus, mestrado e doutorado em estudos da linguagem na UFRN. Agora sou aluno do curso de Letras da Uern, no campus de Assú-RN, sempre em busca do tempo perdido.

P. A.: Como você se definiria como estudante?

Digamos que razoável na infância, medíocre na adolescência e esforçado na fase adulta.

P. A.: Como surgiu seu interesse pela literatura?

Meus pais sempre foram muito democráticos em tudo. Então, ninguém lá em casa era obrigado a ler se não quisesse, exceto o que decorresse das obrigações escolares. Éramos, na verdade, estimulados, pois ambos liam muito e despertavam naturalmente em nós o desejo pela leitura. Além disso, destaco a importância de haver começado a trabalhar aos 14 anos no jornal O Mossoroense e o contato com as obras da Coleção Mossoroense, que me foram apresentadas pelo professor Vingt-un Rosado.

P. A.: Quais foram as suas primeiras leituras e quem foram seus influenciadores?

Lembro-me de uns livrinhos infantojuvenis cujos autores nem recordo, tipo O Escaravelho do Diabo, Tonico e Carniça, O Meu Pé de Laranja Lima, O Mistério do Cinco Estrelas, Um Cadáver Ouve Rádio, Cabra das Rocas, O Menino do Dedo Verde. Depois, a coisa foi ficando mais densa, com Moby Dick, de Herman Melville; Ana Terra, Um Certo Capitão Rodrigo e Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo; Jubiabá e Capitães da Areia, de Jorge Amado. Até aí, tudo na escola.

P.A.: O fato da sua família ter um dos principais jornais do país, sendo o terceiro mais antigo do Brasil, também teve influência no seu gosto pela leitura e pelo jornalismo?

O fato de a minha família ser proprietária, não. Isso talvez tenha facilitado o acesso. O de eu haver tido a oportunidade de vivenciar as rotinas de produção da notícia, sim, porque meu pai apostou que o jornal mudaria minha vida. E estava certo. Terminei de me criar na redação do O Mossoroense, onde verdadeiramente aprendi a ler, a escrever e a ser gente.

P. A.: O que o levou a escrever a sua primeira obra e qual foi?

Tenho uma relação de amor e ódio com o que escrevo. Então, não se espante com o que vou dizer. Minha primeira “obra”, no pior sentido, foi uma plaquete sobre O Mossoroense, movida justamente pela curiosidade de conhecer e documentar a história do jornal. Não recomendo.

P. A.: Quando escreveu seu primeiro texto jornalístico e do que tratava?

Não tenho essa recordação, até porque os primeiros textos, escritos na década de 1980, eram tão ruins que precisavam ser completamente refeitos pelos revisores e copidesques, de modo que, ao final, nem eram mais meus. De toda sorte, fui aprendendo assim, lendo os mestres do nosso jornalismo, a exemplo de Dorian Jorge Freire e Emery Costa, sem descuidar do que era feito lá fora, acompanhando a literatura profissional, dando cabeçada, escrevendo e reescrevendo à exaustão até formar meu próprio estilo.

P. A.: Conte uma pouco sobre sua história dentro de O Mossoroense e o que isso representa em sua vida?

Cid Augusto em O Mossoroense

Foram mais de 30 anos. Comecei na área burocrática, preenchendo formulários, fazendo cobranças, vendendo espaços publicitários. Cheguei a ser “administrador” em 1989. Por sorte, já estava na redação, meu lugar, onde a paixão aconteceu. Lá, assumi as funções de repórter, editor e diretor de redação. Um episódio desagradável, capaz de comprometer a circulação do jornal, fez com que eu dominasse, na marra, as técnicas gráficas, o que se mostrou de grande utilidade no diálogo com a oficina e resultou em maior agilidade do fechamento das edições. Interessante ressaltar que a geração de jornalistas da qual faço parte vivenciou uma série de revoluções tecnológicas, dos tipos móveis às máquinas de escrever eletrônicas, daí aos terminais da Forma Composer e depois aos computadores; da fotografia com filme, reveladores e papel à imagem digital; do telex ao fax, do fax à Internet; dos padrões impressos aos infindáveis formatos eletrônicos.

P.A.: Você acredita que ainda será possível ter o retorno de O Mossoroense em sua forma impressa, ou o jornalismo impresso?

No museu com antiga impressa de O Mossoroense

Nada é impossível, mas seria inviável por falta de anunciantes e até de leitores. A convergência das mídias foi muito além dos aspectos tecnológicos e culturais supostos por Henry Jenkins no início do século XXI. E não me refiro apenas ao impresso. Observe que o rádio e a TV estão sendo obrigados a se adaptar para não serem engolidos. A maioria das pessoas hoje se informa por meios eletrônicos, especialmente o WhatsApp, que alcança 79%, de acordo com pesquisa realizada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, em 2019. O anunciante, por sua vez, foi seduzido pelo fenômeno dos influenciadores digitais, que podem atingir milhares de pessoas em segundos.

P.A.: Mossoró já possuiu quatros bons jornais circulando simultaneamente, mas infelizmente apenas um ainda resiste (Defato). Mesmo com os avanços tecnológicos, não seria possível que uma cidade como Mossoró pudesse manter pelo menos dois jornais impressos? Ou você como muita gente acredita que o jornal impresso deve mesmo desaparecer?

Não quero que o impresso desapareça, mas a realidade vai de encontro ao meu desejo. Sou dependente do papel, ainda compro livros físicos e imprimo documentos antes de ler. Jornais e revistas, por outro lado, leio todos em formato digital. Quanto ao De Fato, tiro o chapéu para o jornalista César Santos. Não sei que mágica ele tem feito, embora imagine o grande esforço e sacrifício, dele e da equipe, para manter o jornal em circulação.

P.A.: Você continua fazendo jornalismo. Sabe-se que muita coisa mudou nas últimas duas décadas e com o jornalismo não foi diferente. O que essas mudanças trouxeram de bom e de negativo para o meio jornalístico?

De certo modo, continuo, embora pelas vertentes da crônica e do artigo. Como hoje sobrevivo da advocacia, que exige muito tempo e muita dedicação, não daria para conciliar as obrigações jurídicas com as rotinas não menos árduas da produção da notícia, sem prejudicar uma coisa ou outra. No tocante às mudanças das últimas décadas, sobre as quais você questiona, essas trouxeram de bom a democratização da informação, tanto para quem produz quanto para quem consome, além da interatividade, da facilidade de checar fatos, de produzir e difundir conteúdo. Posso agora mesmo criar um canal multimídia, praticamente sem gastos, para veicular som, imagem e texto em perspectiva global, sem sair de casa, sem depender de concessão. Observo, em contraponto, com honrosas e felizes exceções, que a pressa se sobrepôs à qualidade e à profundidade dos textos, que o real é seduzido pelo virtual sem qualquer pudor, dando margem ao surgimento de fake news em proporções pandêmicas. Isso é muito grave, porque mentiras midiatizadas podem literalmente matar.

P.A.: O que o jornalismo pode fazer para voltar a ter a credibilidade que tinha até 10 ou 15 anos antes?

A fórmula da credibilidade não é secreta e não mudou nas últimas décadas. Consiste em apurar, analisar e reproduzir fatos da maneira mais honesta, fidedigna e plural que for possível. O problema é que muita gente boa, que se apresenta como jornalista, limita-se ao ctrl-c/ctrl-v de releases ou conteúdos de outros veículos, sem a necessária checagem e muito menos a audição das pessoas atingidas.

P.A.: Sempre se questionou o fato de você pertencer a famílias tradicionais da politica do RN, e jamais ter ingressado na vida pública, para disputar nenhum cargo eletivo. Por que você não ingressou na vida pública como seus pais e seus irmãos, tem uma razão especial, ou foi apenas uma decisão pessoal?

Nunca tive aptidão nem interesse pela vida pública, embora não seja alheio à política e exerça plenamente a cidadania. Ando até me expondo, por acreditar que ninguém tem o direito de ficar calado diante de ameaças à democracia, às instituições que a guarnecem e aos nossos direitos fundamentais.

P. A.: Voltamos a falar sobre cultura. Você já publicou algumas obras e projetos culturais. Relate algumas dessas obras e projetos o que eles representam para você?

Cid Augusto em um momento de Poesia na Cobal

Vou repetir o poeta Jorge Luis Borges: “Que outros se gabem das páginas que escreveram; orgulho-me das que li”. Nesse aspecto, afirmo apenas que tudo o que escrevo representa, bem ou mal, um pedacinho de mim. Clarisse, minha gestora, garante que as palavras me desnudam. Acerca de projetos culturais, peço licença para mencionar dois projetos de que fiz parte e que muito me honram: a criação do caderno cultural do O Mossoroense – Caderno 2 e depois Universo – e a fundação do grupo Poema – Poetas e Prosadores de Mossoró, sob a liderança de Caio Muniz e Marcos Ferreira.

Cid Campos sobre a óptica de Túlio Ratto

P. A.: Você foi convidado a ocupar uma vaga na Academia Mossoroense de Letras (Amol), mas nunca quis assumir a vaga que lhe “ofertaram” e consequentemente foi “desconvidado”. Por que você não quis assumir a vaga?

A simplicidade da minha escrita é incompatível com a imortalidade.

P. A.: Você tem planos de publicar novos livros e qual o gênero? Afinal quais são os seus projetos a curto e médio prazo em relação a literatura e arte?

Sinto-me realizado publicando crônicas, artigos e poemas nas redes sociais e no blog que mantenho faz alguns anos, no endereço www.cidaugusto.com.br. A interação com os leitores, além de maior, é instantânea. Elogios e críticas começam a chegar em segundos, de forma pura, direta, espontânea, e me ajudam a refletir sobre o ato de escrever.

P. A.: O que você gostaria que eu tivesse perguntado a você, que eu não perguntei nessa entrevista, mas que você gostaria de ter respondido e por quê? Aproveite para fazer suas considerações finais.

Não poderia me despedir sem deixar consignado o meu apelo para que todos se vacinem e vacinem seus filhos. Estou com Covid-19 e, apesar da hipertensão e dos problemas respiratórios que me acompanham desde a infância, tenho apresentado apenas sintomas leves. A vacina pode salvar sua vida e proteger as pessoas ao seu redor.

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