A trajetória de uma “brincante da arte”

A trajetória de uma “brincante da arte”

“Sou uma brincante da arte”, assim se define Antonia Lúcia da Silva, ou simplesmente, Tony Silva. Nascida e criada na Rua Melo Franco em Mossoró, ela chega aos 61 anos de vida e quase 40 de teatro, amando e vivendo com alegria o que faz.
Para conhecer um pouco mais sobre um dos maiores expoentes da cultura do Rio Grande do Norte nas últimas décadas, realizamos uma entrevista pra lá de animada com a atriz Tony Silva que foi publicada em 2020 na revista ACONTECE. 
Em nosso encontro virtual, motivado pela pandemia da covid-19, Tony Silva, falou sobre sua origem, seu ingresso na arte de representar e seus projetos, sempre dizendo o que pensa de forma bem-humorada e descontraída.

Por Fabiano Souza

Tony Silva é uma das três filhas dos cinco filhos do casal Otacília Fernandes da Silva/Francisco Nogueira da Silva Filho. “Eu sempre fui uma criança como muitas outras criadas na Melo Franco, brincando e se divertindo na rua, pra cima e pra baixo”, diz.
Formada em Educação Física com licenciatura pela Universidade do Estado Rio Grande do Norte (UERN), Tony Silva se diz uma apaixonada pela vida, pelos homens e pelas mulheres.
Seu contato com o teatro ocorreu no inicio dos anos 80, quando participou de um curso de Técnicas Agrícolas na Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), hoje Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA).
Na época, conheceu Aécio Cândido e Crispiniano Neto, que desenvolviam o projeto cultural dentro da Esam. “Meu contato com o teatro foi nesse curso da Esam, onde conheci Aécio e Crispiniano. Aécio foi meu primeiro mestre como diretor de teatro. Até então, nunca tinha ouvido essa palavra teatro, e quando Aécio disse que ia escrever uma peça juntamente com Crispiniano e eu estaria nela, eu me apaixonei. A peça Circo Alegria do Povo, foi onde tive o meu primeiro papel. A peça foi montada em 80, e em 81, estreamos. Eu e Marcos Leonardo, que somos contemporâneos. Então, fiz esse trabalho, onde ficamos juntos trabalhando por 10 anos, atuando no Grupo Terra. Depois, entrei por teatro de rua com o grupo Escarcéu, onde ficamos três anos. Quando saiu, fui pro Nocaute a Primeira Vista, onde fiquei por mais 10 anos. Depois disso, com mais três amigos, criamos a companhia Máscaras de Teatro, por exigência de empresas que fomos contratada, e tinha que ser uma companhia com registro. Em 2018, decidi sair e iniciar um novo projeto”, relata.
A artista está desenvolvendo o projeto “Sem eira nem beira de arte”, que consiste em fazer arte, não na rua, mas em calçadas, esquinas e becos. Nesse projeto, eu canto, interpreto, leio poesias e conto com a participação de alguns colegas, como Dulcio Cavalcante, Marle Maia e Vanda Jacinto, são pessoas que estão sempre me acompanhando nesse projeto. A gente chega no local, coloca uma banquinha, liga uma caixa de som e leva arte ao povo”, diz.
Ela diz ainda que o projeto é apresentado geralmente nas quartas-feiras, por volta das 18h. Depois de 30 minutos de apresentações, eles abrem espaço para a comunidade se apresentar, dando oportunidade para quem quer cantar, recitar ou representar.
Além desse projeto, Tony Silva também vem realizando a leitura de mensagens de reflexão para pessoas através do WhatsApp.

A percepção de que era atriz depois de 10 anos de atuação

Um fato curioso na vida de Tony Silva é que ela disse que só veio a se ver como atriz depois de 10 anos trabalhando e ensaiando diariamente. “Depois de 10 anos, um dia eu fui vista na TV por um dos vigias da Facem, que era nosso teatro e hoje virou depósito. Logo que cheguei, ele disse: Taí, Tony agora é atriz, apareceu na televisão (sic). Desde desse dia eu passei a refletir sobre essa palavra. Porque ela tem um peso muito grande. É muita responsabilidade. Porque mesmo o teatro estando na minha vida há muito tempo, eu não me sentia uma atriz, eu me via como uma brincante da arte. Desde a minha estreia naquele 15 de novembro de 1980, quando entrei no teatro, até aquele momento não me via como atriz”, enfatiza.
Atriz reconhecida no teatro e cinema, ela disse que se sente ambientada em qualquer lugar que se respire e se faça cultura, no entanto nunca quis participar da direção de nenhum espetáculo.
Tony Silva destaca como seu principal personagem aquele que lhe trouxe reconhecimento do grande público e também da crítica, que foi a “Cega Nicássia”, no Oratório de Santa Luzia.
Questionada sobre sua visão da participação da mulher e do negro na cultura, ela diz que, mesmo diante de todas as dificuldades, as mulheres e os negros têm ocupado seus espaços, não apenas em Mossoró, mas em todo o país. “Nós sempre tivemos um papel importante na cultura. E, ao longo dos anos, vem ocorrendo avanços, tanto que estou aqui sendo entrevistada por você. Falo de avanço na promoção dos espetáculos que foram recebendo apoio e se desenvolvendo de forma mais profissional. Hoje, nós trabalhamos aqui com equipes de iluminação, figurino, palco. Tudo isso é sinal de avanço. Também passamos a contar com casas de espetáculos melhores. Depois da construção do teatro Dix-huit Rosado em Mossoró, outras cidades passaram a dispor de teatros. Isso é importante, agora faltam políticas públicas que possam garantir a manutenção dessas casas de espetáculos, para que elas possam ser bem utilizadas”, acrescenta.
A atriz também revela que tem grandes nomes no teatro nacional e local que a inspiram, como Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Augusto Pinto, João Marcelino e Marcelo Flexa. “Eu tenho um leque de grandes ídolos que eu vou formando ao longo de minha vivência na rate. Tem muita gente bacana, Marcos Leonardo. São eles que fazem que eu me revista e me revigore na minha arte de fazer teatro”, afirma.
Para Tony Silva, a arte é tudo em sua vida. “A arte é meu falar, meu respirar, meu viver, minha visão de uma vida melhor, é o meu tudo”, finaliza. 

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