A genialidade que aflora na obra do multifacetado Aluísio Barros

A genialidade que aflora na obra do multifacetado Aluísio Barros

O Oeste em Pauta, através da série Prosa com Artista, conversou com o professor, escritor poeta, jornalista e ativista cultural, Aluísio Barros de Oliveira. Professor aposentado da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), onde atuava na Faculdade de Letras e Artes, Campus Mossoró, Aluísio Barros  possui graduação em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (1983), especialização em Literatura Brasileira, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Geras – PUC.MG, e em Avaliação, à Distância, pela Universidade Nacional de Brasília (UnB) e mestrado em Literatura Comparada, pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com a dissertação: “África(s), moçambicanidade, Mia Couto: uma varanda para o Índico”. Além disso, ele é autor de pelo menos cinco livros de poesia, já publicados, entre inúmeras outras obras em prosa e texto avulso que compartilha constantemente através de suas redes sociais. Aluísio Barros é conhecido pelo seu dinamismo e vasto conhecimento cultural e artístico que o levou a participar de diversos momentos culturais realizados em Mossoró e outras cidades do Rio Grande do Norte.
Diante disso, convidamos os leitores para uma prosa agradável como esse genial mestre da cultura popular brasileira e autêntico representante da arte brasileira.
Importante lembrar ao leitor que ao final dessa entrevista publicamos um texto escrito por Aluísio Barros, sobre Ivonete de Paula, com quem foi casado por 20 anos.

Por Fabiano Souza

Prosa de Artista: Nos conte um pouco sobre sua história de vida. Suas origens (pais, irmãos, infância, filhos)

Aluísio Barros:

Eu, como tantos interioranos (campo), fui um menino de lagoa, ponte e rio. Cresci brincando de terreiro em terreiro, porque aquela limpeza toda das vassouras madrugadoras não existia com outro sentido, a não ser o de se tornar palco para as nossas brincadeiras, até que o sinal da luz anunciasse que estava na hora de todos debandarem para as suas casas. Meu avô Raimundo da Luz exercia esse mágico poder de ligar e desligar as luzes de Apodi. Vovô trabalhava na Usina de Eletricidade, que aliada ao rádio e o telefone a pilha eram as nossas marcas de modernidade. A energia de Paulo Afonso chegou em Apodi no início dos 70 e toda a minha infância foi vivida no arcaico das lamparinas e lampiões. Muitos banhos de lagoa e rio. Era uma piaba! Aprendi a nadar criança, que era esse o nosso caminho natural. Venho de uma família comum no interior do Nordeste nos idos de 60: éramos sete. Mamãe, que estudou até o quinto ano primário, tivera 12 filhos. Era do lar, nos tempos bons, mas fazia um pouco de tudo para ajudar o meu pai, agricultor ou dono de caminhão, nos tempos ruins. Vivíamos em fartura nos tempos de bom inverno e conhecíamos toda a carência, necessidade, que uma seca é capaz de provocar no desassistido sertão nordestino dos anos 60. Quando leio romance de Rachel de Queiroz (O Quinze), Graciliano Ramos (Vidas Secas), Jarid Arraes (Redemoinho em Dia Quente) ou Itamar Vieira Júnior (Torto Arado), me sinto representado.

P.A.:Como foi sua educação formal, os primeiros anos de ensino e posteriormente a conclusão do ensino superior e pós-graduação?

A.B.: Fui desasnado nas aulas das professoras particulares do Apodi. Depois ingressei no Grupo Escolar Ferreira Pinto, fiz o quinto ano nas aulas particulares de dona Lourdes Mota e prestei exame de admissão ao Ginásio Prof. Antônio Dantas. Concluí com missa e baile minha etapa de estudos em Apodi… E eu já era louco pelo mundo que existia depois da curva da serra. Incentivado pelos meus pais, que sempre viram nos estudos a oportunidade para que eu mudasse o meu destino (o outro caminho seria um emprego de balconista ou quem sabe de ajudante no cartório ou prefeitura) e financiado pela minha Tia Maria Romana, com quem passei a morar mais depois dos 7 anos (tivemos umas separações necessárias, pela minhas inquietações e danações), vim fazer seleção para ingressar no Centro de Educação Integrada Prof. Eliseu Viana, que me permitiu também, por seleção, ir estudar interno no Colégio Agrícola de Jundiaí, de onde saí para um emprego rápido em Natal e outro mais rápido ainda na Emater-Ba, onde descobri que queria mesmo era ser professor ou jornalista. Como perdi o tempo de inscrição na UFRN, vim fazer o Curso de Letras na UERN. O plano era voltar logo pra Natal, onde deixara emprego me esperando. Não deu. Mossoró foi me pegando de um jeito que até hoje penso morar no melhor lugar do mundo. Aqui, estudava e, já contratado pelo Estado do RN, passei a ministrar aulas de Artes Práticas, depois Língua portuguesa e redação, no Colégio Estadual, Escola Lavoisier Maia, Escola Abel Coelho, Colégio Dom Bosco até me tornar professor da UERN, com lotação na Faculdade de Letras e Artes. Estudei em vários lugares, pois julgava necessário esse tipo de experiência para o que me dispunha ser: fui aluno da UECE, da UNB, da PUC-MG, da UFRN. Estava me preparando para o doutoramento, quando Ivonete de Paula adoeceu e resolvi que a hora e vez agora era a de voltar e ajudar a cuidar dela, juntamente com os nossos dois filhos, Camilo e Flora. Éramos divorciados, cada um na sua casa, mas sempre ligados nas outras questões que envolvessem os meninos e a nós mesmos. Ela dizia: “Vá que eu fico tomando de conta. E eu ia”. Hoje, seguimos juntos, os meninos, os netos. Eu não sabia precisar, mas sempre pressentira que seria assim. E seguimos.

P. A.:Como você se definira como estudante?

A.B.: Eu fui estudioso sem ser CDF. Uma variante. Sempre considerei as aulas como a parte mais importante do meu aprendizado. Buscava aprender logo nas aulas. Me antecipava aos assuntos, estudando previamente em casa. Lia muito, num tempo possível, pois sempre trabalhei e estudei. Desde os doze anos, tirando os três anos do ensino médio, nunca passei um só dia sem trabalhar. Na sala de aula, ouvia e anotava tudo. Meu caderno era muito diferente, mas estava tudo ali. Os alunos e alunas parecidos comigo sempre foram estímulos para o meu desempenho docente. Saía de casa sempre pensando na aula que deveria ministrar para atender bem a aluno x, aluna y. Imaginava cada situação que tais alunos poderiam provocar durante a aula. Era um jogo e eu me divertia muito com isso. Se eles não me perguntassem, eu faria a pergunta como se fosse rsrs E assim os anos se passaram. Os alunos me paravam com assuntos sobre música, principalmente, Caetano Veloso, nas aulas das sextas-feiras rsrs.

P. A.:Como surgiu seu interesse pela literatura?

A.B.: Lembro da leitura dos cordéis, na calçada lá de casa, no Apodi, durante a debulha de milho, feijão. Das idas à Biblioteca da FUNDEVAP (Fundação para o desenvolvimento do Vale do Apodi, invenção de Pe. Pedro Neefs). Meu primeiro emprego em Apodi foi vendendo revistas para dona Lourdinha Pinto, avó do prefeito Alan Silveira, que era dona de uma banca de revistas. Eu saía de casa em casa, pois tinha fregueses certos. À noite, lia tudo que podia: O Cruzeiro, Manchete, Veja, Fatos e Fotos, Realidade, HQs, revistas de amor e paixão (fotonovelas). Sempre com o cuidado devido para não amassar, pois eram revistas de vendas.

P. A.: Quais foram as suas primeiras leituras e quem foram seus influenciadores?

A.B.: Inicialmente, além das revistas e gibis, lia romances e poesia na biblioteca. Eu pensava que iria ser jornalista. Sempre escrevi para jornais, desde os jornais murais das escolas por onde passei. No CEI Prof. Eliseu Viana havia jornal mural e falado. Lembro bem de José Maria Alves, Gilvan, Jorge de Castro. Acontecia muita coisa no auditório da escola, inclusive apresentações teatrais. Na Escola Agrícola também fazíamos isso. Não fiz jornalismo porque quando voltei da Bahia, não deu mais para tentar o vestibular da UFRN. Então, minha vontade estava voltada para escrever sobre os acontecimentos. Certo, que já cometia meus primeiros poemas, que traziam essas referências da fome, da seca, das agruras do homem do campo enfrentando a cidade. Até os meus dezoito anos, as minhas referências estavam todas voltadas para o homem do campo. Era uma pessoa do campo tentando ser feliz na cidade. Até hoje é assim que me sinto. Essa mania que as pessoas têm de parar o carro em qualquer lugar porque vai ser “só um instantinho”, é o campo dentro da cidade, feito cactos nascendo no asfalto. Influências? Vislumbro-as hoje, se leio os poemas antigos. Sempre admirei a poesia dos modernistas brasileiros. Versos livres, sem as rimas da tradição. Manuel Bandeira, Drummond, Cecilia Meireles, Vinícius de Moraes, Gullar, João Cabral de Melo Neto, meus poetas de lida. Sempre atuei como professor das literaturas de língua portuguesa, então, as minhas leituras é que de certo modo irão se fazer voz nos poemas que escrevo.

P. A.: O que o levou a escrever a sua primeira obra e qual foi?

A.B.:Estou fora de casa, sem a presença dos pais e dos irmãos, da minha cidade natural, desde os 15 anos. Escrevo para preencher esses vazios que foram se fazendo dentro de mim. Pássaro Oculto é o meu primeiro livro. Os poemas trazem as inquietações da idade. Um eu-lírico que se encanta com a cidade grande (Natal, Salvador) e toda a carga emocional para se manter vivo e firme porque pra casa não voltaria mais. Tem os encantos e desencantos. Sem desmedida. Saiu pela Coleção Mossoroense e vendi os livros de mão em mão, como se fazia.

P. A.:Na sua opinião um bom escritor pode se fazer ou nasce feito?

A.B.: A genialidade se faz presente em todas as formas da manifestação artística, mas o método, a técnica é coisa que pode ser apreendida na escola ou pelos ensinamentos de um mestre. A escola da oralidade sempre existiu. Patativa do Assaré aprendeu a fazer poesia – e o fez genialmente – porque ouviu e viu outros poetas em ação. Esses poetas, então, foram os mestres, a escola dele. É nessa tradição que ele cresce. No tempo de Platão, Aristóteles as pessoas aprendiam ouvindo.

P. A.: Conte uma pouco sobre sua história como ativista cultural

A.B.: A nossa militância no setor cultural se dá nos tempos do ensino médio e da faculdade, pela via do movimento estudantil. Algumas atividades a que me associei como docente, vejo como ação docente, não trato como ativismo cultural, pois traz essa marca da docência. No movimento estudantil da UERN, desenvolvíamos atividades – como membro do centro acadêmico da Faculdade de Letras e Artes ou do DCE –, no Auditório da Reitoria e no Bar do ACEU. São atividades que desenvolvíamos junto com o pessoal da ESAM, muitas vezes. Shows, recitais, os shows de Primeiro de Maio, cinema de arte. Quando tive coluna de artes (GERAES) no Jornal O Mossoroense promovi por duas vezes o “Arte no Beco”, que era uma exposição de artistas e poetas na Travessa Jornalista Martins de Vasconcelos, no centro. Tudo envolvia muita gente. Várias ações nasciam em mesa lá de casa ou na casa de Aécio Cândido. Quando realizávamos atividades no Bar do ACEU ou no Auditório da Reitoria, por exemplo, buscávamos congregar os nomes do movimento cultural e artístico da cidade: atores, músicos, cantores. Geralmente, universitários da UERN e da ESAM. Depois que comecei a atuar como docente na UERN, fui me afastando das atividades, que continuaram sendo feitas por outros estudantes do movimento. Inclusive, o pessoal do Movimento Carcará é quem vai assumir, no Cine Carcará, as atividades que desenvolvíamos no ACEU e no Auditório da Reitoria. Acredito que em Mossoró as coisas sempre aconteceram. Esse movimento cultural e artístico é de tradição. Desde os fins do século XIX que Mossoró possui movimento teatral, por exemplo. Os anos 60 e 70 é de uma riqueza espetacular. O Teatro Escola de Amadores de Mossoró – TEAM –, que tem à frente o Lauro Monte Filho é algo sensacional. Pessoas como Lauro Monte Filho, Irismar Ribeiro, Kiko Santos, Tarcísio Gurgel, Maria José Melo, Délia Mendes, Gilson Marcelino, Henriqueta Filgueira, Wilson Maux, José Gurgel, Nestor Saboia, Totõezinho, isso, para ficarmos no elenco, sonoplastia, arranjo musical e direção de Eles Não Usam Black-Tie, a Palma de Ouro do Teatro Mossoroense – Maria José Melo, a Romana, da peça de Gianfrancesco Guarnieri, foi escolhida como a melhor de todas as [atrizes] amadoras brasileiras do IV Festival Nacional de Teatro de Estudantes, realizado em Porto Alegre, em 1962, numa ribalta onde desfilaram Dina Sfat, Regina Duarte, Lilian Lemmertz, Yara Amaral… e mais de 500 estudantes [o ator não profissional era chamado de estudante] vindos de diversos estados do Brasil. Se hoje há teatro contestatório, acreditem, tudo nasceu nos FNTE. Tarcísio Gurgel relembra isso e muito mais [quase alcanço escutar outra vez Ivonete de Paula – ressurge nas páginas de O Espetáculo Passageiro como uma impagável “Rainha” – enchendo os jardins de Luís Aquino e Vânia com esses nomes mágicos: B de Paiva e Paschoal Carlos Magno!!!!]

P.A. Nos fale um pouco sobre Ivonete de Paula e o que ela representa para sua vida até hoje, já que sempre que tem oportunidade você faz questão de lembrar dessa pessoa maravilhosa.

A.B.: Nós fomos casados por vinte anos. Tivemos Camilo e Flora. É uma história que se mistura, inicialmente, com as páginas sociais dos jornais mossoroenses, por onde passamos e inevitavelmente nos cruzamos. Quando o colunista do Mossoroense, Toinho Silveira, foi embora para Natal, Jaime Hipólito, que era meu professor no curso de Letras e me incentivava muito na coluna que eu mantinha n’O Mossoroense, acabou achando, juntamente com Dorian Jorge Freire, que era diretor do Curso de Letras, que eu poderia escrever a coluna social. Era para escrever sobre os acontecimentos sociais e culturais da cidade, uma agenda de tudo, numa linguagem enxuta, sem afetação, me diziam. Mostravam-me como os jornalistas dos grandes centros faziam (Rio e São Paulo). Acreditavam que poderíamos criar algo assim nos jornais de Mossoró. Então fui. Era um suplício porque as coisas daqui não tinham esse ritmo de Rio e São Paulo, não. Então, eu tinha que recorrer muito a Ivonete de Paula que sempre foi o nome maior do colunismo social da cidade e que já havia escrito antes para O Mossoroense. Ela era a cronista da rádio Difusora, fazia o programa “Encontro Dois”, que era de muita audiência. Depois saí do jornal e fui colaborar, por uns tempos, na Rádio Rural. Ali, fazia um programa aos sábados, “Outras Palavras”, que era parecido com a coluna “Geraes” que escrevia para o jornal, antes de ser colunista social. Na Rural, fiz ainda alguns programas de “A Mais Bela Voz”, que acontecia na Praça Vigário Antonio Joaquim, depois da Gincana Cultural, que foi um grande acontecimento da Rádio Rural, por ocasião dos festejos de Santa Luzia, nos idos de 84/86. Da Rural, fui para o jornal “Gazeta do Oeste”, de Canindé Queiroz, para escrever sobre o movimento cultural e artístico da cidade e acabei editando o “Segundo Caderno”, juntamente com o jornalista Nilo Santos, que era o diretor de redação. Quando o colunista Gomes Filho saiu, acabei sendo içado outra vez para o colunismo social. Acredito que o alvo era sempre Ivonete de Paula, mas por alguma razão – talvez por impedimento ou pela indomabilidade, aliado ao fato de que tinha outros compromissos, não sei – eu acabava assumindo uma coisa que sabia “temporário”, pois não me sentia à vontade. Tenho horror de agenda controlada. Não gosto de saber que minha semana vai ser obrigatoriamente assim assado. Então, a coluna tinha o jantar na casa de cicrano, o uísque no bar e restaurante tal, festa em tal lugar, aniversário de 15 anos da filha de fulano. Havia uma obrigação social que me tirava todo o tesão de viver. Não é que seja avesso a isso, não. Mas como obrigação, trabalho, eu achava muito chato. Um dia, Canindé Queiroz me perguntou se estava gostando de ser colonista social, lhe disse que me assustava a facilidade com que as pessoas me entregavam um copo de uísque, tão logo adentrava no ambiente. Ivonete adorava. Era a vida que ela dominava muito bem. Então, ela fica escrevendo no meu lugar e vou cuidar de minha cadeira docente. Ela vai fazer assim até sofrer um AVC, em 2010, que é uma história que toda Mossoró já conhece. Minha vontade sempre foi a UERN. E Ivonete trabalhava lá também. Então, a nossa vida se misturava tanto que um dia acabou. Por desgaste. E ponto.

P. A.: Você continua escrevendo para algum veículo de comunicação?

A.B.: Sempre participei de todas as revistas e jornais que foram inventados em Mossoró, principalmente nos anos 80/90. Atualmente, escrevo uma coluna “cultural” na Revista Presença [digital], da jornalista Marilene Paiva.

P. A:Como você avalia o atual momento cultural no estado, levando em conta a questão da pandemia?

A.B.: O movimento cultural vem sobrevivendo aos trancos e barrancos. Foi o setor mais afetado pela pandemia. E que se diga, já vinha sofrendo ataques sucessivos por parte do governo Bolsonaro, em suas investidas contra a Lei Rouanet. Desde muito tempo que o movimento se faz através de editais. E isso acaba se tornando – como todo movimento regido por editais – excludente. A Lei Aldir Blanc e seus 3 bilhões destinados aos estados, municípios e ao Distrito Federal para medidas de apoio e auxílio aos trabalhadores da cultura atingidos pela pandemia, traz uma série de exigências que, infelizmente, dificultam a vida de quem mais precisa. Uma coisa é certa, o artista que estiver fora de um coletivo dificilmente vai conseguir sobreviver até o final, que ainda não vislumbramos. Tenho visto muita coisa na mídia virtual (lives), mas não é a mesma coisa. Nunca será. Torço que a população inteira seja vacinada e a covid-19 passe a ser uma doença sob controle. Por enquanto, vacina para todos é o que precisamos. Em Mossoró se resiste. Tem muita gente passando muita necessidade, principalmente, os que atuam no circuito noturno.

P. A.:Você já publicou algumas obras e projetos culturais. Relate algumas dessas obras e projetos o que eles representam para você?

A.B.: Publiquei alguns livros de poesia (Além de Pássaro Oculto (1981), Canção fora de tom & outros poemas (1986), Anjo torto (1993), Não toque, Alice (2001) e Dos Amores Que Beiram os Meus Caminhos (2013). Sou sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar – ICOP e da Academia Apodiense de Letras – AAPOL. Participei, como diretor cultural da UERN, do projeto “Outras Falas”, que consistia na vinda de grupos teatrais de outros estados para apresentação aqui, no Auditório da Reitoria. Era um projeto do Centro Cultural da UERN. Jocelito Barbosa, que trabalhava conosco e tinha experiência como produtor cultural, pois trabalhara como o grande Paulo Autran, em São Paulo, é quem viajava para fazer a seleção dos espetáculos. Aqui, tínhamos o apoio da Prefeitura de Mossoró, da Petrobrás e do Sabino Palace Hotel, para o desenvolvimento dessa ação. Desenvolvíamos um projeto de cinema, o “Cine 16”, com a cinemateca do SESC, ainda fizemos alguns shows com artistas locais e da região. Acredito que exercíamos uma missão da universidade e que continua sendo executada pela Pró-Reitoria de Extensão em atividades com outros nomes e pessoas, o Festuern, por exemplo. Assim também, na Fundação Municipal de Cultural. Cada tempo tem seus projetos e pessoas, graças a Deus. É um moto-contínuo.

P. A.:Você tem planos de publicar novos livros e qual o gênero? Quais os seus projetos a curto e médio prazo?

A.B.: Em processo de escrita, Barco perdido, bens carregados, poemas e outros ditos. Ainda não tenho uma data para publicar.

P. A.:O que você gostaria que eu tivesse perguntado a você que eu não perguntei nessa entrevista, mas que você gostaria de ter respondido e por quê? Aproveite para fazer suas considerações finais. 

Agradecer o convite para essa nossa conversa. Acredito que a nossa participação na vida cultural da cidade ultimamente esteve sempre associada à nossa atividade docente, na Faculdade de Letras e Artes, da UERN. Em 91, quando terminei um curso na PUC-MG, fiz uma escolha bem consciente: larguei o Abel Coelho, o Gazeta do Oeste, que eram os melhores lugares de trabalho para mim, até então, e escolhi a UERN/FALA como o lugar em que deveria atuar, dali pra frente. E foi o que fiz até a pandemia nos pegar de assalto em fevereiro de 2020. Com a morte sempre por perto, levando pessoas próximas, entrei em pânico e acabei requerendo minha aposentadoria. Desde então, nossa vida social está restrita ao convívio familiar e aos amigos com quem caminho todos os dias, ora no parque municipal, ora no corredor cultural da avenida Rio Branco. Nunca mais saí na noite. Me comunico com as pessoas pelas redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram). Até aqui, a literatura tem me salvado. E, para um Mundo possível, #VacinaParaTodos, Sim.

Texto sobre Ivonete de Paula

Uma breve história de Ivonete de Paula Barros

Ela foi atriz e, antes de ser Eutíquia, a mãe de Santa Luzia, no “Oratório de Santa Luzia”, 2000, auto religioso idealizado por Gustavo Rosado e dirigido por João Marcelino, que passou a fazer parte do calendário sociocultural e religioso dos festejos à Padroeira dos Mossoroenses, com encenação no adro da Catedral de Santa Luzia, Ivonete de Paula brilhou nos palcos de Mossoró, Natal, João Pessoa, Campina Grande e outras cidades, como parte integrante do TEAM – Teatro Escola Amador de Mossoró, estreando as peças “Dona Xepa”, de Pedro Bloch, 1962, “O beijo no asfalto”, de Nélson Rodrigues, 1963, dirigida por B. de Paiva, “O auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, 1964, dirigida por Haroldo Serra, “Irene”, de Pedro Bloch, 1964, dirigida por B. de Paiva, que também a dirigiu, em 1965, em “A perda irreparável”, de Wanda Fabian. Ressalte-se q B. de Paiva (José Maria Bezerra de Paiva, 1932) e Haroldo Serra (1935-2019) eram reconhecidos diretores e atores da cena teatral da capital alencarina, com quem o TEAM, dirigido por Lauro Monte Filho, estabelecia frutíferas relações. Ainda constam da carreira de Ivonete de Paula, junto ao TEAM, a peça “O simpático Jeremias”, de Gastão Fogeiro. Os seus colegas do TEAM, dentre eles Kiko Santos, Felipe Caetano, Maria José Melo, Maria Lúcia Escóssia, José Gurgel, Nestor Saboia, João Bosco Queiroz Fernandes, consideravam-na a “Bibi Ferreira do Teatro Mossoroense”.

Ela também participou do Teatro Universitário Mossoroense – TUM – formado por estudantes, professores da UERN e convidados da comunidade, embrião do GRUTUM. Nesse grupo, que tinha a direção do Pe. Alfredo Simonetti, ela participou do espetáculo “Alvorecer”, 1968, de Lourdes Lima, que era um texto com fortes críticas à ditadura militar vigente em nosso país. O ponto alto do espetáculo era o momento em que ela cantava “Funeral de um lavrador”, poema de João Cabral de Melo Neto musicado por Chico Buarque de Holanda, para a peça “Morte e vida severina”. “O público vibrava, a aplaudia de pé”, relembrou certa feita o professor Felipe Caetano, que também foi integrante do TEAM e da seara teatral de Mossoró, falecido recentemente vítima da covid-19.

Dizer que Ivonete de Paula foi atriz e trabalhou na peça *O Vaso Suspirado*, 1970, dirigida por Tarcísio Gurgel, ainda diz pouco dessa extraordinária mulher, sempre à frente do seu tempo e parte total dele, também exerceu o magistério, sendo contratada pela Secretaria de Educação do Estado do RN para lecionar em escolas das séries iniciais do ensino fundamental, dentre elas, o “Jardim de Infância Modelo”, quando concluiu, em 1966, a “Escola Normal de Mossoró”.

Paralelo ao seu trabalho como professora primária e às incursões pelos palcos, Ivonete de Paula, de incansável espírito, iniciara o curso superior de Serviço Social, na Faculdade de Serviço Social – FASSO -, da Universidade do Estado Rio Grande do Norte – UERN (na época denominada Universidade Regional do RN) -, vindo a compor a terceira turma de concluintes, no ano de 1970. Graduada em Serviço Social, passou a assumir cargos de coordenação em repartições públicas do RN, sendo a primeira Coordenadora do CSU – Centro Social Urbano do Conjunto Walfredo Gurgel. Também foi Coordenadora do SINE – Sistema Nacional de Empregos – na Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social do Governo do RN, nos governos de Lavoisier Maia, José Agripino e Geraldo Melo. Na UERN, antes de ser aposentada como cerimonialista, em 2004, exerceu funções de Chefe do Setor de Pessoal, Chefe de Gabinete no reitorado do reitor-fundador da UERN, professor João Batista Cascudo Rodrigues, e no da professora Maria Gomes de Oliveira, primeira reitora de universidade pública da América Latina. No reitorado da professora Maria das Neves Gurgel de Oliveira Castro foi Chefe da Assessoria de Imprensa. Na UERN, ainda, chegou a atuar como professora substituta, no Curso de Serviço Social.

Se a Modernidade tinha o rádio como seu veículo de maior expressão, não causa espanta que o espírito incansável da Pequena Notável, apelido que ganhara graças ao seu tamanho mignon, menos de 1,50 m, comparável ao de Carmem Miranda, fosse iniciar também a carreira de cronista social, nos microfones da Rádio Rural de Mossoró, de 1965 a 1968, onde apresentou o “Programa Calendário”, a convite do Monsenhor Américo Vespúcio Simonetti (1929-2009). Feito estrela cadente, passa pelos microfones da Rádio Tapuyo até se tornar líder de audiência na Rádio Difusora de Mossoró, com o “Programa Encontro Dois”, apresentado durante toda a década de 70 e meados dos 80. Tais

programas, que se diga, sempre aconteciam no horário nobre do rádio mossoroense: a hora do almoço. Um jingle faz sucesso até hoje anunciando o cast da Difusora ZYI 20: J. Barbosa, J. Belmont, Givanildo Silva, Paulo Bertrand, Coronel Pereira, Edmundo Torres, Edmilson Lucena, Assis Cabral, Antonio Martins, Patrício de Oliveira. Na Difusora, atuou como rádio atriz, quando, durante um ano, sob a direção de José Genildo Miranda, foi Leonora, a Condessa de Castel Frank, na novela “Um grito ao longe”. Todos os microfone de rádio contaram com a presença da Pequena Notável, inclusive a Rádio Libertadora. Nem só o rádio… as páginas impressas de O Mossoroense, fundado em 1872, por Jeremias da Rocha Nogueira, também contará com a colaboração da jornalista Ivonete de Paula, notadamente, no período de 1968 até 1976, quando manteve a “Coluna Ivonete de Paula”. Em meados de 1987, ela é convidada pelo jornalista, economista e professor Canindé Queiroz para ser a titular da coluna social do Gazeta do Oeste, onde permanecerá até 2008, quando sofre um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Antes do fim, que se diga, Ivonete de Paula, como cronista social, promoveu as maiores festas que a sociedade mossoroense pode vivenciar no “sodalício da Manoel Hemetério” – o Clube ACDP: a Noite Classe A, sua festa anual, que acontecia na noite de 29 de setembro, véspera dos festejos maiores da Abolição da Escravatura em Mossoró. Era noite de glamour, que congregava excelentes artistas de renome nacional, políticos, empresários, acadêmicos, mulheres bonitas e elegantes e em que os mossoroenses, acreditem, vestiam seus trajes finos, black tie, apesar do costumeiro calor da noites, e dançavam sob os acordes de orquestras vindas do Rio de Janeiro, do Recife, de Fortaleza…

Ivonete Pereira de Paula Barros, filha de Francisco Pereira de Paula Barros e Laura Luzia Medeiros de Paula, nasceu em Upanema-RN, em 09 de dezembro de 1939. Logo cedo, a família de “Sêo” Chico e dona Laura migrou para a cidade de Mossoró, instalando-se na Rua Pedro Velho, no Bairro Santo Antonio. Em 1982, uniu-se em casamento com o professor, e também atuante nas lides jornalísticas local, o apodiense Aluísio Barros de Oliveira – 20 anos mais novo, naturalmente. Desse casamento, que durou “vinte anos blues”, vieram os filhos Camilo (1982) e Flora (1989).

Em 13 de junho de 2016, depois de um longo martírio ainda decorrente do AVC, com o agravante de perda de memória (Alzheimer?), assistida pelo silêncio da cidade, sob os olhares dos filhos e do ex-marido, ela finalmente descansa na UTI do Hospital Wilson Rosado. Está sepultada no Cemitério São Sebastião, desta cidade.

É patrona da Cadeira n. 44, da Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Mossoró – ACJUS – e membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Mossoró – AFLAM.

Aluísio Barros de Oliveira, poeta e professor aposentado da UERN

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *